MATÉRIAS JURÍDICAS

A advocacia não é chata, divirta-se!!!

A invasão dos Gerúndios Assassinos

Como profissional do direito e por lidar com vários estagiários, tenho a obrigação de “estar alertando” o quanto é péssima essa mania de utilizar o gerúndio na comunicação.

O artigo abaixo encontrei em curso da Universidade CAIXA, além de bem humorado nos faz refletir sobre esse “virus” que danifica a comunicação e irrita os que gostam da língua portuguesa. Boa Leitura.

image

Um artigo que vai estar falando mal dessa mania de estar inserindo verbos só para enrolar os outros

O novo horror da língua portuguesa é a invasão dos gerúndios assassinos.Você já deve ter passado por isso. Alguém ao telefone lhe pede para “estar esperando”, porque vai “estar lhe passando” a informação que você pediu “quando o chefe estiver tendo condições de estar lhe informando” qualquer coisa. Pior do que ter passado por isso : você já deve ter se surpreendido falando assim.

Não é a primeira vez que se investe contra essa nova forma de expressão. Gramáticos, por exemplo, são puristas por excelência e detestam qualquer desvio na norma culta da língua. Em geral, eles “vão estar detestando” a invasão dos gerúndios.Já os lingüistas, por natureza muito mais liberais, só prestam atenção à adequação da comunicação. Ou seja : “O recado que você queria dar foi passado ? Então ótimo”. Não, não está ótimo, não. Porque o modo como se passa um recado diz muito sobre a pessoa que o passa.

De onde vêm esses malditos gerúndios ? Uma das hipóteses mais fortes é que eles são uma adaptação brasileira da forma ing, do inglês. Americanos são craques em usar e abusar do ing. Se for isso, é uma adaptação equivocada, porque a forma ing não é o equivalente do nosso gerúndio. Ela pode ser gerúndio, mas também particípio e até infinitivo. (Por exemplo : a expressão “I’ll be sitting there” não equivale a “Eu vou estar sentando ali” e sim, “Eu vou estar sentado ali”. “Thanks for coming” , não é, “Obrigado por ter vindo”, mas “Obrigado por vir”.) É por ter estrutura gramatical diferente que o inglês recorre tanto ao ing.

Posto este argumento, precisamos imediatamente desqualificá-lo : mesmo se estiver correto, ele não tem a menor importância. Quando uma língua se apropria de uma forma de expressão de  outra, que se dane o que ela quer dizer na outra língua – a forma de expressão passou a ter novo dono, e o novo dono pode fazer o que quiser com ela.

imagegerundio

Então, vivam os gerúndios !Na-na-ni-na-não. Há uma razão muito mais forte para rejeitá-los. E a razão é rejeitar os motivos psicológicos que levam à “gerundização” da língua.

Minha hipótese é a seguinte : o abuso do gerúndio ocorre em situações mais ou menos específicas. Geralmente, quando alguém está tentando nos enrolar. Quando uma pessoa diz “eu vou estar te passando esta informação amanhã”, o que exatamente ela quer dizer? Que vai levar o dia inteiro de amanhã passando e repassando a informação para mim ? Que não vai fazer mais nada amanhã, porque estará ocupada me passando a informação ? Que vai passar a informação e vai me acompanhar o tempo todo para ter certeza de que eu não a perderei ?

Verbos denotam ações. Quanto mais perto do sujeito da frase está o verbo, mais a mensagem denota uma ação deste sujeito. Pode reparar : em situações que requerem objetividade, não há lugar para o abuso dos gerúndios. Você imagina uma assistente dizendo ao cirurgião, na mesa de operação “eu vou estar lhe passando a tesoura”? O gerúndio, que geralmente se interpreta como uma ação que se continua, vem sendo usado para alongar a frase, separando o sujeito do verbo principal.

O português do Brasil já é pródigo em maravilhosas expressões que quebram a rispidez da ação. È uma característica cultural, insistir na relação em vez de frisar a objetividade do ato. Geralmente, isso é feito com a transformação do verbo em substantivo. Por isso, se você vai a uma festa, mas sem muita convicção, você não vai passar, e sim “vai dar uma passada” por lá. Talvéz até “ dar uma passadinha”. Do mesmo modo, você pode dar uma olhada, em vez de olhar, dar um tempo, em vez de mandar a namorada ou o namorado às favas etc.

No caso dos gerúndios, cuidado com eles : você vai estar passando a impressão de enrolador.

David Cohen

26 Novembro, 2008 Publicado por materiasjuridicas | Artigos | , , | Sem comentários ainda